Crónica de Nelson Fernandes: O próximo jogo de Maradona

 



Crónica da autoria de Nelson Fernandes

O próximo jogo de Maradona




Não tenho dúvidas! Deus precisava de ganhar um jogo. Para isso chamou Maradona. Quem poderia chamar? Foi com Maradona que começou a gostar de futebol. Aquele miúdo de La Boca tirava-o do sério. 


A “trunfa” encaracolada emoldurava um rosto inocente, alegre e de olhos risonhos, que tinha uma bola colada ao pé esquerdo, e que só de ver jogar enchia a alma. Gostou tanto dele que resolveu ser seu companheiro de seleção. Quis desequilibrar o jogo do mundial do México, e fazer com que os vencidos das Malvinas ganhassem aos vencedores das Falklands. E aí, depois de se extasiar com aquele “slalom” que imobilizou os jogadores adversários, e que se transformou no golo do século, resolveu intervir, e, pregou uma partida aos ingleses, marcando-lhes um golo com a mão de Maradona. E a partir daí, não se importou de, na Argentina, repartir a divindade com ele. É verdade que, na sua inocência, Maradona deu logo conta da intervenção divina, dizendo que o golo foi com “a mão de Deus”. Ramon Diaz, seu companheiro de seleção, num dos seus frequentes acessos de ciúme, dizia que aquele “anão gordo” não poderia ter chegado com a cabeça aquela bola e arrebata-la das mãos de Shilton; o que significa, indiretamente, que também ele achava que havia por ali mãozinha celestial. Um dia, em Madrid, numa conferência sobre Liderança, Jorge Valdano, também seu companheiro de seleção e seu admirador e amigo, dizia que, na seleção argentina, à vez com Mário Kempes, tinha também a tarefa de proteger Dieguito, aliviando-o das tarefas defensivas. E se essa proteção era eficiente Deus sabia que falhou muito com Maradona. Espanha foi um equívoco e Barcelona ficou indiferente ao seu futebol. Os defesas espanhóis abriram uma verdadeira caça ao homem que culminou com o episódio vergonhoso do bilbaíno Goicoxea, que lhe ia custando a carreira. A mudança para Nàpoles foi o cume da carreira em termos de clubes. O Nápoles passou de clube mediano, para não dizer medíocre, a campeão de Itália e a vencedor de uma taça UEFA. E os napolitanos nunca esqueceram os seus feitos, tanto que num jogo do Mundial realizado no S. Paolo, entre a Itália e a Argentina de Maradona, quem jogou fora foram os italianos. Mas também aí Deus distraiu-se, e Maradona caiu nas malhas da cocaína e nas mãos da mafia. Foi preso, julgado e condenado. A sua produção futebolística caiu a pique, o regresso á Argentina tornou-se inevitável e a carreira terminou ingloriamente, depois de um episódio de doping na seleção, episódio esse que Maradona nunca perdoou a Grandona, o todo-poderoso presidente da Federação Argentina. Nos intervalos das doenças Maradona foi treinador, sem grande sucesso diga-se, pois o futebol era a sua vida, mas nunca mais encontrou a tranquilidade e a paz que o jogo lhe proporcionava. Cuba e Fidel, desenvolveram nele a sua faceta de cidadão empenhado na libertação do subcontinente, granjearam-lhe a consistência no respeito de que então desfrutava; e foram um bálsamo para as suas angústias e depressões, e em certa medida um alívio para os seus males. Após o hematoma subdural, preparava com o filho de Fidel nova estadia em Cuba. Deus, agora na sua função de selecionador, achou que neste jogo não podia passar sem Diego Armando. E este respondeu á chamada. Vai de certeza ganhar este jogo. Até sempre!


Todas as crónicas escritas neste espaço são da inteira responsabilidade do seu autor, assim como as ideias e pensamentos adjacentes da mesma.

Publicar um comentário

0 Comentários