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29 de novembro de 2017

Histórias de Escritores no 8.º aniversário das 5as de Leitura



CULTURA

Em noite de festa, a segunda edição de Novembro das 5as de Leitura, dedicada a comemorar os oito anos deste projecto de promoção dos hábitos literários e de propiciação do convívio entre autores e leitores, foi dedicada, mais do que aos livros dos escritores convidados - os consagrados Mário Cláudio e João de Melo - às pequenas histórias de vida que estão na base das grandes histórias que se dedicam a contar-nos, em palavras vertidas em papel. Da inocência da infância à crueza da guerra, dos amores aos desamores, o que move, afinal, um escritor?

A música de João Ferreira, docente do Conservatório de Música David de Sousa, abriu o serão. Depois, coube ao presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, João Ataíde, saudar a presença dos escritores convidados, bem como da editora Maria do Rosário Pedreira, e recordar os objetivos das 5as de Leitura, ciclo que o Município promove, ininterruptamente, há oito anos: «perceber o que move os escritores, entender a sua sensibilidade e, assim, estimular o interesse dos leitores, promover a cultura em geral e a literatura em particular, para potenciar o pensamento crítico e a reflexão».
O açoriano João de Melo, autor, entre muitos outros, do multipremiado romance «Gente Feliz com Lágrimas», e laureado, em 2016, com o Prémio Vergílio Ferreira, pela sua carreira literária, e o portuense Mário Cláudio, ficcionista, poeta, dramaturgo e ensaísta, cuja extensa obra - Tocata para Dois Clarins (1992), Retrato de Rapaz (2014) e Astronomia (2015) são apenas alguns dos títulos mais conhecidos - mereceu também múltiplas distinções, incluindo o Prémio Pessoa, aceitaram o repto e, mais do que dos seus livros, partilharam com as dezenas de presentes as suas vivências e opiniões.
«A literatura começou em mim antes de saber o que era. Porque aprendia, na escola, sobre rios e comboios e reis que não existiam nos Açores. Este saber inútil abriu-me a imaginação», explicou João de Melo. Também a educação religiosa «perfeitamente medieval», a perda de três irmãos ainda crianças quando ele próprio não passava de um rapazinho, «com as pessoas a darem à minha mãe não os sentimentos mas os parabéns, por ter dado anjinhos ao céu», moldaram o escritor. «Lembro-me do rosto da minha mãe, com metade da boca sorria e com a outra metade chorava», confidenciou. Depois, já no continente, seria num seminário que continuaria o seu despertar, desta feita para a iliteralidade das palavras bíblicas. «Um padre explicou-me, finalmente, que Adão e Eva e o Dilúvio não eram para levar à letra, que a Bíblia era feita de símbolos», recordou. Aos 15 anos, já escrevia textos de transgressão, encontrava na palavra escrita a panaceia para a crise em que tanta realidade o lançava. «Encontrei amparo na escrita dos outros», resumiu, assumindo que é esse mesmo efeito, «num único leitor», que lhe dá a sensação de missão cumprida.
Menos propenso a verter as suas vivências nos seus livros, Mário Cláudio disse-se «mais cobarde para enfrentar» os seus fantasmas, mesmo se, como reconheceu «se escreve para perceber quem somos». Ainda assim, mais ouvinte e fiel depositário de histórias alheias do que contador das próprias, foi «escavando nas profundezas» de si que cresceu como escritor, depois de uma infância rodeado de mulheres - a começar pela avó piedosa que fazia promessas a pagar pelo neto invariavelmente vergado sob as vestes do Senhor dos Passos, «quando queria era ser um dos soldados romanos» -, mas onde nunca lhe negaram o acesso à biblioteca generosa do avô. Dos outros, foi colhendo as «confissões» voluntárias, fruto da confiança que as pessoas tendem a depositar nos padres, médicos e escritores. «Um escritor é um frequentador de vidas alheias», sumariou, sem esconder a crítica à proliferação atual de textos que se sobrepõem aos seus autores. «São muito iguais», afirmou, corroborado por João de Melo, que lamentou «o declínio dos intelectuais» e a falta de voz dos escritores na sociedade civil. «Que voz temos nós, escritores, para além dos nossos livros? Quem quer saber das nossas opiniões, neste tempo de comentadores de tudo? Não existe a tribuna do escritor», concluiu. «Ainda havemos de olhar para trás, de sentir necessidade de regressar a um certo classicismo, de ter um novo renascimento», sustentou Mário Cláudio.
A noite terminou com a conversa aberta aos presentes, num momento de cumplicidade entre escritores e leitores que se alargou ao já habitual momento de descontração ao sabor de chá de limonete.      




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