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11 de novembro de 2017

Estamos a tornar-nos analfabetos sensoriais», alertou Tolentino Mendonça nas 5as de Leitura


CULTURA


Em mês de festa, em que as 5as de Leitura comemoram oito anos, a noite abriu com a exibição de alunos do Conservatório David de Sousa». Na primeira de duas sessões agendadas para novembro, o Auditório Municipal acolheu o poeta, sacerdote e professor José Tolentino Mendonça, e o editor da sua mais recente obra, «O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas», Rui Couceiro, para uma conversa moderada pelo Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, João Ataíde.



«Há neste livro uma serena inquietação que me remete para um livro que me tocou na juventude, a «Peregrinação Interior» de António Alçada Baptista, pelo que nos transmite da identidade cristã, na sua cultura de valores e no conjunto de referências de que, muitas vezes, nem nos damos conta», disse o edil, na abertura do encontro que juntou mais de centena e meia de admiradores da obra de Tolentino Mendonça. «Eminente teólogo e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, Tolentino Mendonça é um homem tranquilo e sereno mas preocupado com a comunidade, com uma perspetiva evangélica de organização social e de partilha, e não ‘apenas’ de fé», acrescentou o edil. Sobre o livro, João Ataíde disse tratar-se de «uma espécie de breviário, para ser lido e relido, um texto por dia que seja, de forma a estimular o pensamento e a reflexão com palavras que nos inquietam e enriquecem».
José Tolentino Mendonça, por seu turno, agradeceu o convite para esta conversa com leitores que o conhecem dos seus livros ou das crónicas na imprensa. «Conversar é um ato humano que nos vincula uns aos outros», fez notar. «Podíamos escolher ignorar-nos mas optamos por transformar hostilidade em hospitalidade, acolhendo as palavras dos outros em nós», sintetizou. Escrever é, afinal, uma forma de conversar com mais outros, e de lhes levar o quotidiano de ainda outros. «A atenção à vida, ao pormenor, à vida minúscula, porque é isso que está ao nosso alcance transformar, é essa a minha missão enquanto poeta e ensaísta», considerou. «Os instantes, os pequenos momentos, de beleza, de humanidade, são as epifanias, as revelações de que precisamos para a travessia do não sentido para o sentido, da sombra para a luz, como pedras que, no rio, nos permitem passar de uma margem à outra», ilustrou. Também enquanto sacerdote, Tolentino Mendonça segue o caminho das perguntas, mais do que das respostas. «A fé é um drama. É uma pergunta, não uma resposta. É um livro do desassossego e não uma instalação de certezas», afirmou. «Vivemos tanta coisa, passamos por tantas experiências que, às vezes, não temos capacidade para entender ‘a vida fantástica’ que levamos, como disse J. D. Salinger, no livro “Uma Agulha no Palheiro”», explicou. «É preciso que contemos a vida para termos consciência de que, ao fim de um dia, não foi tudo pó, não foi tudo corrida», prosseguiu. E é, afinal, nas pequenas coisas do quotidiano que estão as grandes perguntas. «Não estão nos tratados de filosofia, estão-nos coladas à pele: quem somos? para onde vamos? qual o sentido da vida?», questionou. «Deus é uma pergunta, a fé está do lado das perguntas e o mais importante não é encontrar as respostas mas perceber que, a cada resposta, a pergunta se amplia», considerou. «Vi, um dia destes, numa parede, a pergunta “Há vida antes da morte?” e fiquei a pensar que faz sentido. Porque se desistimos, de fazer perguntas, de pensar, de sentir, então morremos muito antes da morte física, porque somos caminhantes, somos nómadas, peregrinos nesse caminho de questionamento», conclui.
Ao longo do serão, Tolentino Mendonça falou ainda sobre a importância dos afetos e dos cinco sentidos que, mais do que qualquer tecnologia, nos permitem um encontro sensorial com o mundo e com os outros. «Estamos a tornar-nos analfabetos sensoriais. Isso preocupa-me», admitiu. «Ouvimos mas não escutamos, fotografamos mas não vemos», exemplificou.
Com a plateia, Tolentino Mendonça dialogou ainda sobre outros temas, e outras religiões. «Acredito muito no ecumenismo, na escuta mútua, porque o mistério de Deus é maior do que o mistério das igrejas, Deus tem uma latitude maior e temos de ter a humildade de perceber isso», afirmou. Também os não crentes lhe merecem a mesma atenção. «Tenho tido a sorte de ter queridos amigos não crentes. Um deles disse-me que os não crentes também têm dúvidas, que a dúvida não é exclusiva da fé. Às vezes esquecemo-nos disso», concluiu.
O serão literário de 9 de novembro terminou com a habitual sessão de autógrafos e o convívio regado a chá de limonete e alimentado por bolinhos e dois dedos de conversa sobre as muitas perguntas que Tolentino Mendonça partilhou com os presentes.

A próxima sessão das 5as de Leitura, comemorativa dos 8 anos deste ciclo cultural, acontece já a 23 deste mês, tendo como convidados os consagrados escritores João de Melo e Mário Cláudio, e as editoras Cecília Andrade e Maria do Rosário Pedreira.


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