26 de abril de 2017

Crónica de Quarta: As Vacinas

Foto de tudodito.com

           
David Afonso

Recentemente, tem-se assistido à polémica da vacinação devido ao surto de sarampo causado pela não vacinação de crianças, por parte dos pais, algo que motivou este debate. A não vacinação surge, em grande medida, nos países desenvolvidos, em classes instruídas e em indivíduos que procuram ter um controlo sobre o seu corpo e o dos seus filhos, o que acaba por poder pôr em risco, a saúde pública. Vejamos, por exemplo, o caso dos Estados Unidos da América, onde a classe de pessoas instruídas sente que a sua liberdade está a ser violada, pelo estabelecimento de programas de saúde pública, que os “obrigam” a fazer ou a tomar algo, afastando, assim, a hipótese da vacinação lhes poder salvar a vida. Este pensamento parece assentar em três pontos essenciais: a falsa segurança da vacinação; o desconhecimento da doença em si (que a vacina, supostamente, previne) e, acima de tudo, o acesso fácil à informação sobre a doença (e.g.: através da internet), que lhes transmite a ideia de saberem mais que um especialista\cientista que estudou, durante anos, o assunto em questão. Ou como aquele amigo irritante que foi passar um fim de semana à Irlanda e em dois dias tornou-se um especialista de todos os fenómenos sociais, políticos e económicos irlandeses.

O que acontece quando uma criança não vacinada vive em sociedade? Poderá pensar-se que a doença está erradicada ou que a criança não a apanhará, caso não seja vacinada, o que transmite à família uma falaciosa ideia de segurança. Acredita-se que a rede social da criança funciona como uma barreira à doença e que esta não tem forma de a apanhar se, os que a rodeiam, forem todos vacinados. Estas pessoas acabam por ser, então, como que um escudo da própria criança. Mas imaginemos o seguinte: com o passar do tempo um pai pode ver o seu melhor amigo, que não foi vacinado, morrer sem ser por ter contraído a doença. Pensa-se, então, que, se o amigo não foi vacinado e não contraiu a doença, a vacinação do filho não será necessária, tomando-se a decisão de não o vacinar. Em suma, é transmitida a ideia errada de que a doença foi erradicada, uma vez que não foi a causa da morte do indivíduo. Porém, devemos ter em consideração que, esta criança, que acaba por não ser vacinada, anos mais tarde torna-se adulta, passando a ter uma presença activa na vida de outras crianças, seja como pai, tio, ou amigo da família. Acaba por tornar-se num possível propagador dessa doença a outros indivíduos que não tomaram, também, a vacinação. Isto faz com que estas pessoas acabem por formar uma brecha no escudo protector da sociedade, revelando-se um perigo para a saúde pública da mesma.

Desta forma, os pais que põem em causa a vacinação das suas crianças não devem olhar para elas como se fossem sua propriedade única. Devem, sim, considerar que as mesmas interagem com a restante sociedade e que, ao não serem vacinadas, estão a pôr em risco a saúde dos restantes elementos da população. Antes de tomarem a decisão de não quererem vacinar os seus filhos, os progenitores devem reflectir que, ao fazê-lo, estão a aumentar o risco de terceiros contraírem a doença, podendo desencadear surtos da mesma.

Uma outra razão para a não vacinação prende-se com o facto de cada vez mais, as pessoas perderem o contacto directo e experiencial com as doenças em si, derivado à vacinação. Parece algo contraditório, mas atentemos no seguinte exemplo, considerando até o panorama actual: uma pessoa sabe, na teoria, o que é o sarampo, mas nunca teve contacto com a doença nem assistiu às suas repercussões em ninguém. O facto de saber que a doença já não é comum faz com que a pessoa tenha uma falsa noção da erradicação da mesma, acreditando que o sarampo já não existe, o que faz com que a pessoa deixe de se preocupar em tomar a vacina, optando, assim, pela não vacinação. Em suma, as pessoas acreditam que, como a vacinação previne a doença e a maioria da sociedade se vacina, então a doença já não se poderá propagar, mesmo que um ou outro indivíduo não tome as devidas precauções. 

Claro está que, esta é uma Assunção falaciosa, pois não podemos considerar que uma doença está erradicada só porque não há casos recentes conhecidos de infecção. Basta-nos atentar no facto de nos ser aconselhada a vacinação para certas doenças, quando decidimos viajar para alguns destinos tropicais ou de terceiro mundo. É que nalguns países as doenças que, para nós, estão, supostamente, erradicadas, lá não estão e a probabilidade de contrair a doença é mais elevada. O terceiro ponto para a prática da não vacinação, prende-se com a ignorância atrevida de algumas pessoas. Pode parecer engraçado o achar que se sabe mais do que um médico ou de que um especialista, mas na prática, tal pode ser um perigo para a saúde pública. De notar que, por especialista, entende-se um indivíduo que tenha uma carreira de investigação, e não um curioso que pensa que um artigo na Internet vai substituir os anos passados na universidade e nos laboratórios de investigação. Hoje em dia temos assistido cada vez mais, e com grande apoio da comunicação social, ao surgimento de indivíduos ou “charlatões”, que não possuem qualquer conhecimento de causa, mas debitam informações e “curam” doenças gravíssimas, através do que, na realidade, denominamos de efeitos placebo, influenciando, assim, uma parte da população. Como exemplo, apresento um caso passado no Sudão, em que Ímãs especialistas em teologia e no estudo do Corão começaram a dizer ás pessoas das comunidades crentes, que a vacinação contra a pólio causava sida e provocava infertilidade masculina e feminina. 

O resultado foi o ressurgimento da doença nesse país, uma vez que as pessoas deixaram de se vacinar, por irem de encontro à opinião desses “entendedores”. O que acontece é que, pessoas que acham que uma pesquisa na internet é mais confiável que a opinião de um médico, ou que acreditam que tudo se resume a uma conspiração governamental contra a sua liberdade, acabam por abster-se de ir ao serviço de urgências de um hospital e de serem atendidos por uma equipa médica especializada. Nas suas cabeças de que vale ser atendido por um indivíduo que sabe menos que ele? Neste caso estamos perante a célebre mentalidade “Eu é que sei o que é melhor para mim!”. Decerto que há quem se ache mais habilitado que as entidades competentes e irá certamente à costureira do bairro cozer um corte profundo que tenham acidentalmente feito. Tenhamos muito cuidado com os ditos cujos estudos cientificamente comprovados (de origem duvidosa) e com as opiniões de especialistas formados não se sabe bem em quê.

Caro leitor, as repercussões da sua falta de vacinação e da dos seus filhos podem, gravemente, colocar em risco a saúde da restante população. Tenha sempre em consideração as consequências das suas decisões para a saúde da sociedade e informe-se junto de especialistas antes de tomar uma decisão definitiva. Não formule a sua opinião apenas por ter lido o que aqui escrevi. Confie num profissional de saúde devidamente credenciado e, essencialmente, não acredite em pílulas de farinha e água.

Crónica da Autoria de David Afonso

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